POEMAS DE TAKASHI WAKAMATSU

Takashi Wakamatsu é poeta, nascido em São José dos Campos em 11/11/1976, hoje radicado no Amazonas.

Filho de Maria Amélia Wakamatsu e Riujy Wakamatsu. Sobrinho de Valmir Camargo.

 

 

 

            Antes que seja tarde demais

            (um apelo aos que tiverem ouvidos)

 

           O mato é como sempre foi

           A melhor escola para nossos filhos

           A palmeira além de palmito piso e ripa

           Dá frutos excelentes e nisto ela é phd

           Dá buriti, açaí, bacaba, pataua, tucumã, pupunha...

           Elas abrem suas folhas para a luz do sol

           Que junto à terra na raiz serve-lhe de alimento

           Dá cachos em abundância

           Conforme seus ciclos e suas normas

           As condições de clima e solo podemos fornecer

           Podemos confiar na planta que ela dá

           Suas pencas de vinho, tetas de leite roxo

           Provem com alegria e satisfação

           Temos de aprender com as arvores

           A ficar felizes quando fonte

           Quem usufrui dela são as aves

           A astúcia é nossa asa

           Por isto também desfrutamos como os macacos

           Subir lá no alto para ordenhar o milagre

           E só em caso de muita abundância

           Ciente na sabedoria

           Cortar um ser assim tão bom

           Quando vamos construir nossas casas

           Quando precisamos prá comer e não pra vender

           E nossos filhos precisam saber também

           Entrar com as palmeiras em seus sonhos

           Para brincarem de paisagistas no jardim interinp

           Onde oniscientes habitamos o sol

           Há na cabeça junto ao miolo

           Um lindo quintal ou uma caverna

           Ou um palácio se preferirmos

           É o único lugar realmente seguro

           Ali podemos ficar tranqüilos

           Lembremos a castanheira, a araucária, beribá, cupu

           Guabiroba, caju, goiaba, abacaxi, maracujá

           Cascas, raízes, seivas, cipós

           Erva mate, tabaco, macaxeira, gerimum, amendoim, 

           batata doce

           Milho

           As coisas de troca elementar e essencial

           Irmãs que nos sustentam nesta passagem

           Vegetais o tempo todo a nos auxiliar

           Produzem o oxigênio nas algas, nas folhas

           Do alento a doar-nos vida

             Desesperança

              Desesperança

              Medo

              Ensinaram o ficar calado

              O não lutar solitário

              Contra o instinto

              Alucinado da luta

              As armas e as prisões

              Animais castrados

              Bebes de proveta

              Criatividade atrofiada

              Moral do trabalho

              Escravidão paga

              Cravos da roseta

              Azia aérea

              Assim não há como haver

              Sentido nem conteúdo

              

             Votar no diabo ou nestes candidatos

             A nos governar, dá no mesmo

             O próprio não seria tão diabólico

             Sabemos quem sempre quebra a cara

             E mais uma vez sequer levantaremos um dedo

             Para nos defendermos destes que sem titubear

             Sacrificam crianças nos altares da fome

             Agora, quando apontam o buraco

             Corremos pra ele como se fosse a coisa mais certa

             Do mundo a se fazer

 

 

             

             Encontrados ou perdidos

             Encontrados ou perdidos

             Nos encontramos neste mundo

             Na maior parte das vezes desconexos

             Da ordem natural

             Só na perdição do amor finda-se a busca

             Fica claro ali o estarmos à deriva

             Num eterno entroncamento

             E se incomoda a agonia no silêncio e solidão

             Continuarei em velado labor

             Chutando de bico

             Cada vez mais forte

             No calcanhar de Aquiles da engenhoca

             Tão amada dizem as más línguas

 

                  

                             

                    Extra ! Extra !

                    Exclusivo, fato fenomenal hoje no diário de Goiabal, depois de anos anunciando óbitos de vez em quando, finalmente um furo, uma notícia sensacional: Égua é comida por tubarão atravessando igarapé ao lado do cavaleiro. Vamos aos fatos: Estamos aqui no exato local onde esta manhã, às sete e setenta aproximadamente Do dia dez de eneiro de mil novecentos e alguma coisa, égua da raça dos pangarés é impiedosamente devorada por tubarão faminto, em respeito a sua dor não entrevistaremos o cavaleiro, conseguimos apenas uma comovente declaração:  - Essa égua era a minha vida. Desculpe telespectador

Mas não pude conter as lágrimas diante... Já no céu a coisa foi diferente, nosso jornalista de plantão São Beto Monstro Marinho, que pra subir até os bem aventurados se disfarçou de arcanjo, por sorte ninguém notou o rabinho dele; Como foi pra senhora dona égua? - Olha seu doutor, foi uma maravilha, Eu só fazia carregar peso o dia inteiro, tomar esporada, reiada, chicotada, era um inferno, inclusive o sinhô deve di tá sabendo muito bem cumé que é agora que habita o próprio né, já o céu é o céu essa belezura Ihh! Ihhh! (relinchos ). Enquanto assistiam a essa entrevista pegamos uma jangada e fomos atrás do verdugo tubarão, tentamos nos informar com um cardume de tainhas mas na hora que ouviram a palavra cação debandaram desarvoradas , foi o caranguejo que delatou : “ É, passou por aqui hoje cedinho, indo do mangue pro mar, arrotava e fumava um porronca, tá sesteando mais alí numa gruta, mais adiante o encontramos, ficou furioso porque o acordamos em meio a sua siesta e bradou: - Comi mesmo, era uma potranca, ô carninha mais dura, era só músculo e nervo mas deu pra fazer uma boquinha huc! huc! (soluços). Acabamos de ouvir de primeira mão a declaração do dito cujo, vejam vocês o sangue frio deste peixe. Ficamos por aqui , termina mais um programa da Rede Goiabal de notícias, a voz do povo goiabense, fiquem com nossos comerciais e até amanhã .  

           

       Lembremos o passado

 

       Lembremos o passado

       Sempre–sempre repassado

       Repensado como eco

       Que o presente eterno

       Depende do vigor da memória

       Interno sempiterno

       Quando teve início a abertura?

       Afrouxaram os grilhões da ditadura

       Um povo pra saber de si precisa aprender

       Tudo quanto vale a liberdade

       Hora de passear no inferno

       Se inferno nele esta o erro

       Nele esta a cura

       Hora de seguir ao céu

       Se céu nele esta curado

       Secura é sertão, pampa, mata

       Ermo onde somos desertos

       Somos nós mesmos e uma nação

       Quando escolhemos àquele que nos ia governar?

       Aquele a quem todos queriam

       O velho mineiro assassinado

       Por aqueles que não largam o osso

       Hora de mergulhar neste fosso

       Para ser fortes tomar o sangue grosso

       Do salvador no vinho secreto

       Abramos o inquérito

       Riscar os decretos decrépitos

       Seguir à risca a constituição

       Dos dois primeiros mandamentos

       Que bastam e arrebatam

       E arrebentam qualquer grade

       Ascendem qualquer coração

       Se abrimos aberto está

       Chamemos às portas da verdade

       Pra ver se nos deixam entrar

       As chaves são as palavras certas

       Dirigentes da intenção

       A mão na maçaneta é a entonação, a vibração

       A reverberação ressonante, a devoção

       Sem trégua questionar a regra

       Quem tem fé não se entrega

       Prega os próprios pés na cruz

       E onde brotaria o pus

       Resplandece em luz

       Suspiro, sopro, assovio, susss...

       A raiz esta no negro, no índio

       Mestiço, caboclo, mameluco

       Feijoada completa, somos todas as raças

       Latim com tupi

       Cristo-Tupã

       Cisne no tucupi

       Modinha, lundu, carimbó

       Baião, choro e rasqueado

       Os cantos verdadeiros

       De nossas gentes verdadeiras

       De nossas aves a cada tansmontar

       Evoco o jeitinho de lidar

       Driblar na malandragem

       Sem que a bola saia do lugar

       Bem vindos os brasileiros de alma

       Todos que queiram se abrasileirar

       Nossa pátria é teta farta

       O único ouro real na terra

       É ar puro, solo fértil, água de beber camarada

       Não vamos nos submeter

       Mas esta tudo certo

       Tudo sempre como deus quer

       E o que ele quer é transformação

       Caiu a mascara do pateta

       O mundo cansou do papelão

       Trocar o disco, mudar a dança

       Quem somos nós?

       O que faço a respeito próprio

       Diz respeito a tudo que somos

       Não somos mais que gente

       Querendo sentir sempre mais

       Ser um consigo para ser um só

       Com os demais que não serão mais demais

       Atados na corrente do amor

       A única que liberta

       Aberta, correta meta

       Seta siga nesta direção encantada

       Cheguem as maravilhas deste alívio

       A seiva escalando-nos as vértebras

       As flores com mais pétalas

       Nas costas das folhas

       Um canto de silêncio vem sombrear as almas

       Vem desvelar o clarão

       Um espírito de serenidade

       Benção amazônica

       Herança ancestral

       Aparentemente há muitas sendas para o Éden

       Cada mito leva um nome diferente

       Mesmo com o mesmo fito

       Fito a madrugada bonita

       Mesmo fria, úmida, nublada

       Mesmo sem lua

       Mesmo escura a madrugada

       Vamos sorrir na desgraça

       Que na graça estaremos graves

       Riso consciencioso

       Com muito discernimento e ação

       Rédeas curtas, arredios sem moleza

       E que nada fique pra amanhã

       Afinal herdamos a espada de fogo

       Celebremos o pão multiplicado

       Carne do milagreiro regozijado em no-la-dar

       Osíris, Orfeu

       Façamos o sacrifício diário

       De morrer e renascer pela vida

       Sem medo da morte

       Encarando a temerosa sorte

       Já que mostramos as cartas

       Contemos todas antes de guardar o baralho

       Pra ver se nada ficou escondido na manga

       Encerrado esta, o jogo de garimpeiro

       De revolver cavando, peneirando

       Atrás da pedra preciosa

       Sempre procurando, buscando

       Devolvamos à terra

       O que dela é

          Porque tenho de pensar-me, é castigo?

 

          Porque tenho de pensar-me, é castigo?

          Lembrar das coisas que disse

          E me perguntar porque não fiquei com o bico fechado

          Sentir vergonha minha diante de mim

          Desconhecer-me no ato

          E depois na hora do dar-se conta

          Preferir que nunca me desse conta de porcaria alguma

          As pessoas que admiro em suas virtudes

          Que sou incapaz de imitar

          Se tivesse um tesouro qualquer

          Daria-o por esquecer-me

          O dia em que desaparecer

           Terei me encontrado

           Estarei plantando batatas

          O dia em que desaparecer

           Saibam que me encontrei

           Estarei plantando batatas

 

    

 

           Nada faço

 

           Nada faço como sempre

           E assim será

           Arvorem-se a juizes

           Os baluartes da moral

           A peçonha da zombaria

           Daqueles que consideram-se o que há de melhor

           Nada tenho desde o nascimento

           E nada terei                 

               

           O verbo ter

           Normalmente compreendido

           É um tremendo equívoco

           Nunca fui um infelizmente

           Parcela integrante e ativa

              

           Meio deslocado

           Fui mais um

           A não chegar nem perto

           De saber quem ou o que sou

             

           Nada fiz por não encontrar

           O que a meu ver

           Valesse a pena ser feito

               

           Mas agente vai se vacinando

           E a vida vai virando um troço

           Cada vez mais interessante 

 

 

 

            Tornar

 

            Tornar-me um homem sadio

            Não um homem comum e doente

            Poderia dançar com os pés atrás da cabeça

            Trabalhar por prazer, estudar, ir em festas

            Enfim ser alguém explicitamente especial

            Abandonar esta esquisitice onde calei-me a vida toda

            Pensam que saí de trás destas muralhas

            Ilusão, posso enganar a todos menos a mim

            Pus um pé pra fora do portão e dei uma olhada

            E agora estou aqui pensando se dou o outro passo

            Mergulhar de cabeça

            Se algo me ferir poderei voltar acossado

            Para lapidar no gelo escuro os hinos da angústia

            Saberei cantar o prazer

            Com tanta potência quanto abafo a dor?

            Encima do muro entre eu mesmo e o mundo

            - Alguém me empurre! 

 

 

 

            O menino perguntou ao velho:

 

            O menino perguntou ao velho:

            -Por que não beija a velha como o jovem à menina?

            O velho esta cansado de sua cara

            Nos olhos e na cara enrugada da velha

            Que já não agüenta mais a cara da morte

            O menino não entendeu

            O adulto intuiu e gemeu calado

            O adulto perguntou ao velho

            Por que o prato tinha sempre que estar

            Exatamente naquele lugar e os palitos acolá?

            O velho disse que tinha que ser assim por que tinha e pronto

            O adulto não entendeu

            O menino gostou da resposta e sorriu

            Quiseram saber porque o velho nunca sabia onde

            deixava as coisas

            E por que diabos deveria eu saber onde estão as coisas?

            Ambos não entenderam

            Mas tiveram a quase impressão

            De que a velhice é a infância duma outra vida

 

 

 

           Cerra-se a cortina

 

           Cerra-se a cortina, umbral

           Sonho derradeiro, sem sono mais

           (ou dum portal o abrir-se)

           Evóco-vos tranquilo

           Óh aves invisíveis do dia-a-dia

           Irmandade silenciosa

           Deixai erguer-se a flama

           A compreensão descarnada

           Estando em carne viva arde

           -- "O que acontece? por onde ir?"

           Nunca se sabe, alegre nem triste, isto

           A luz vela e às vezes até

           Faz crer um trilho

           Mas é o caminho da água

           Vai da fonte pro mar

           Ô verãozinho pra chover!

           Pra compensar o inverno seco

           Que seria o sinal do fim

           Manda São Pedro! to te escutando

           -- "Dê-me a mão, não sei nadar!”

           A pensar ser o que já não se é

           Ver que não se é o que sempre acreditara ter sido

           Almejar permanência após romper-se o elo

           -- "Que fazer dos desejos? onde o prazer? "

           Deixai nos ossos as emoções

           Que lhe digo se há janelas

           Onde os degrais do áureo desvão

 

Sonetos

 

                   As almas aladas anunciam-te

                   As mesmas que cantam tua nênia

                   Até aqui és irmã gêmea

                   Do teu reverso claro e brilhante

 

                   Na fala brasileira és fêmea

                   A flauta do urutau te encante

                   Para embriagar este bacante

                   Argênteo luar, amante me`a

 

                   De grave insônia és o berço

                   Falso escape deste labirinto

                   Refresca-me tua aragem fria

 

                   Quanto mais neste abismo desço

                   Mais domina-me sombrio instinto

                   De temer a claridade do dia

 

 

          Logo atravessar a estrutura

          Descer degraus até a enxovia

          Canta subterrânea cotovia

          Versos duma secreta escritura

 

          Alta via verticalmente ínvia

          Medir nossa terrível quadratura

          Formão devorador da escultura

          Aos golpes que o porrete envia

      

          Desprezo à orgia sedutora

          Não tarda afundar este navio

          Esta desviadora geringonça

 

          Voa a dentadura que estoura

          Acendo na peruca o pavio

          Cutuco com vara curta a onça

 

Onde a força mesma jaz secreta e calma

 

Onde a força mesma jaz secreta e calma

Impulso do roto trecheiro de vila em vila

Atrás de mais estrada, uma cana e seu balde de churume

A tal da gravidade faz o igarapé salgar

O calor potencia do sol esconde outros sóis

Nuvens a mover os ventos, a lua é o yô-yô do mar

Deve haver uma grota imemorial com esse combustível etéreo

Este outro diamante, um indestrutível

Esse embalar dum trato com a foice

Com Pã e toda cambada do Olimpo

Guerra, amor, loucura, fúrias, musas

O uivo do lobo é o gozo do gemido na presa

Perscrutar de tocaia, perseguir, abater, matar

Engendrar a semente no chão e cuidar

Esse sentar-se pra pitar, este pacto

O milho vindo a prole se indo

Pelo mundo afora com as próprias pernas

E acua-se o medo temendo tanto ímpeto

Foge o banzo diante da alva de áfrica

Seu lugar na tribo e na savana, a liberdade de lutar entre leões

O planeta é plano desde quando ganhamos asas

Senta a pua! Avião avua, a cordilheira é o ninho

Do pássaro imenso que voa alto, voa com ardor, com motor

Mergulhar em azul de ceu e mar, em verde de floresta perder-se

À mercê da sussuarana e da sucurí, em picumã de tempesta grossa

E gruta funda, onde as inscrições ancestrais

Nesse molho, essa caldeira borbulhante

Deita lenha, gira a pá, tempera

Da agonia de morrer-se a cada instante em que se esta só demais

Do desespero de não se tocar carne palpitante

E suar e morder e perpetrar

O feijão ha muito plantado um dia o orvalho germina

Vargem madroça, eira, manguá, crivo, panela, peido

O destino-intestino inefável do grão de regalo da terra

Uma mãe com leite, porra, lama, sangue e lágrimas

Com todo amor e carinho no final das contas

Devora e digere cada filha, cada filho

E tanta gente nasce e sente o bafo do verão

Os braços são os tentáculos do polvo, da lula

Os galhos do gapuvuru, as folhas da embaúba as mãos

O pé é asa de toguató e urubú

Boca poço do morro, sumidouro da lagoa

Frutas comidas pelo tempo, bicho engraçado

Cria prá si um oleiro olheiro, desvairada fantasia da imaginação

Castelo de pedra, fossa e muralha

Alí minha fábula de encanto, com a Medusa e a Cuca no calabouço

Pra atingir o tesouro labirinto com touro

Xô tédio nesta esquizofrenia saudável

Aldeões do queijo e do pão

Donde emana o êxtase do vinho jamais pisado?

 


A casa caiu

Era o tresouro mais valiouso
Ouro , platina , diamante , é pouco !
Pensava que era o amor
Que fosse rabicho , encanto !
Nada vale mais
Cavalo de pomba gira
Do lado de baixo do equador
Era uma placa fina
Minha mão segurava dum lado
Outra segurava do outro
Est`outra mão largou de mão
Pra acender um cigarro ou sei lá
Foi-se pro charco tudo que mais prezava
Desprezo ou menosprezo
Crassa desconsideração
De graça meu tudo afundou
Impio coração , casta leprosa
Inapta ao melhor
Em nome do trocadilho
Nervos putrefeitos em formol
Excremento e enchofre no meu peito
No rosto atônito
Um arrôto seguido de vômito banal

Karai Mirim

A criança

A criança faz da mao um ninho
Tem ali um ovo de vidro
Mas pequeno e redondo
Castanha pupila cristalina
A bolinha de gude ele mostra
Qual seus olhos transparentes ela transluz
Com fios de capim doirado
Com um solzinho brilhando no meio
Ou ele traz no rosto duas bolinhas mais
Ou traz na palma da mao
Um terceiro olho
O olhar com que enfatiza o brinquedo
Faz dos tres um
Tem uma fila de moleques
Cada um amostra a sua
Galhofeiros , miudos

Karai Mirim

 
Aos trancos

Aos trancos ( fura o pneu )
E Barrancos ( caio eu )
é a saga de Dom Quixote
O Pancho é de palha
O cavalo tem rodas
Agora tem trem pra tentar fugir ao calor , à estrada
Mas nada , nao ha como escapar
Dali vira o delirio
Do sol
Na planicie extensa de parreirais
Uma bela chaqualhada
Pra assenta os sedimentos do solo
Baixar a altura , endurecer o chao
Com longitudes e vinhos
Barbaro sem fogo , sem lingua nem toca
Caçando diariamente tudo e nada
Sem caça , com fome , sem Dulcineias
Nem agua nem cao
Exposto a mouros , bascos e javalis
à merce das mares e do verao
Cada dia mais pobre , a cabeça mais fraca
O corpo mais cansado
Quisera ouvesse outra vida
( e nela um reino do ceu qualquer )

Karai Mirim

Nomade

Nomade , malemau consigo comunicar-me c'oa gente
Palhaço maltrapilho , uns riem , outros olham desconfiados
Os pirralhos tem olhar de vaca , fascinados
Segue o bufao na bicicleta velha
Agora o espantalhinho é Virgilio
As bermudas rasgaram na bunda
As camisas encardidas , manchadas de vinho e graxa
Escondendo-se pra dormir nos esconsos nos fins de tarde
Sujo da poeira grudada no suor seboso
Sempre acuado pela agressividade do receio
Da maioria incapaz de computar a estranha figura
Sigo na apaziguada raiva duma solidao cada vez mais solida
Cada dia muito mais selvagem
Perdendo a linguagem , oque afasta o mundo
Quando sinto um pé atras saio fulo , saio batido
Cada vez menos travo contato com as pessoas
Nao consigo mais sentar num bar e tomar um café
Pedalo , rumino paisagens

Karai Mirim

 
Taça de fino cristal

Os olhos nao me repreendam
O sentimento nao estranhe nem receie
Nao sois menos esquisitos saibam
As mentes nao condenem a persona
O seio esta em carne viva bucho aberto
Nao sejam varejeiras a colocar ovos
Uma bicheira seria fatal
Os nervos mau encapados
Dao curto circuito às vezes
A mera tirania sutil das emoçoes
Arranha com outro espinho esta carne
Oh gatos , cuidai vossas unhas !
Perdi a força bruta , a guarda caiu
Nao adianta meter a testa , tento esquivar
Salto , voo , deslizo , razante de ave
Estou a ouvidar o veneno da cobra
Deixem-me ser nu , sujo , à toa
Ja nao alcanço mais em cima do armario

Karai Mirim

 
O segundo tempo não importa , trata-se do assassinato dum velho mineiro pela corja de coronéis vampiros

Prorrogação

( vem num crescendo o som da bateria duma escola de samba , no coro os vates pegam em surdos , tambores e tamborins , apitos... )
Surge numa tela ao fundo a Liberdade ( Aquela mulata do tapa sexo que ninguem viu )
Voam confétes e serpentinas , todos dão um grito em uníssono : Viva à Liberdade !
( ela entra rebolando sua abundância a ofender às Deusinhas do Olimpo )


Apologia à mulata melancia

Na péle adivinha-se o cacau e o melado
Doçura e amargor em seios fartos e férteis
Trazes neles o leite da vida , ambrosia do amor
Quem não viu no carneval de 2008 ?
Se havia ou não tapa sexo foda-se
Imoral é tapar o sítio sagrado
Receptaculo do semen , urna da criação
Onde opera a natureza o maior milagre
No papel de india cabocla negra lisinha
Tua nudez foi castigada como vaticinara o grande dramaturgo
Morena tentação por quem se perdem as almas dos castos
Tua miragem a sambar na avenida
Teu brilho de purpurina e suor
O azeite e o sal a temperar teu corpo
Nepente universal tua saliva , teu gozo
Acendes sim o desejo , o mais chão
Pródigas nádegas num quadril de pura generosidade
Só lhe ví poucos segundos na tvlizão a rebolar tanta graça
E rendo-lhe esta homenagem de santa admiração
Vasculha-se tanto lodo e lama pra se encontrar tão raro acepipe
- " A rranjei um freseado , que já guardo decorado , para quando te encontrar ,
Como é que voe se chama , quando é que voce me ama , onde nós vamos morar "
Noel




Cordél de Severino

De febre fort`altardo
Balanga a rede cai os pau
A clareirabre num brado
Enxofre , salitre e sal
Morno sangue mergulhado
Retiescurumbral

Por berço u`a negra nau
Lepra , colera , escravidão
Salvas estão nossas almas
Bola na bucha do canhão
Ululante miséria
Abre-se ao mar o alçapão

Da doce cana o fogo
D`ardente tibirita
Máquina dinguinorança
Que nos impossibilita
Prende mais que corrente
Est`agua maladicta

Sempre apretando o cabresto
Espetaculo da chibata
Sem fala , livro , história
Sem chão sem teto nem mata
Basta a pestilencia moral
De dentro nos arrebata

Vamos todos passear
Neste auriverde parque
A carne de cada um
No seco sertão é charque
Pra parar na prateleira
Poque se és "mau " , marque!

Merreca de troco da mermo
Só pro bicho e cachaça
Meus filhos de mãe solteira
A brincar de ladrão na praça
Chega os puliça em cima
Ai meu deus que desgraça

Por tudo é só trupeço
Tapa supapo e repelão
Na sopa de terra e chuva
Pedaço de préda é pão
Ganha-se a vagar por aí
Catando lata e papelão

Sózinhos sempre mais e mais
Por companhia o porronca
A velha buchuda amargou
Pariu e segurou a bronca
Alguém quebrou o silêncio ?
É a barriga que ronca

Tanto o pai como o avô
O bisavo foi peão tambem
De rasto , de pé , de mula
Partimos todos pr`além
Ouví este severo hino
Livrai-nos do mel amém

Apita o juiz , fim de jogo

Karai i

Putakeupariu!
Não é minha mais !
Das vozes na cozinha na noite passada
Que tua mãe já escutara
Sangue de Jesus trei veis
É pobrema né meu anjo ?
Gente morta cum coisa pra dizer
Agora soluçamos nossa separação
Se eu ficasse mais um minuto te trazia comigo
Em Caceres arrependido tu me dói tanto
Ficaste triste quando tua vó contou
Que o pai dela cigano pegou tua bisa no laço
Após matar a aldeia dela toda
Isso lá pra Bahia , eram como , os cambuís ?
Nossa historia é uma desgraça só minha neguinha
A cama pulguenta onde nos amamos
Sem porcaria de camisinha porra nenhuma !
Agente foi cum a cara um do outro
Num foi não ?
Dio boia ! sou mesmo um pária
Como o primeiro filho da puta com quem foste morar
Aos teus dezessete criança e começaste a apanhar muito
E era violentada todo santo dia
Não fugias com medo do canalha
Que comprou uma arma pra te ameaçar
Te desacordava na porrada antes de sair
E te deixava trancada até ele voltar
Até o dia em que fugiste com outro
E o animal pedindo pra voltar pra ele
Te deu uns derradeiros murros que te racharam o crânio
Depois tu deu pra ter crise de quebrar tudo
A psiquiatra disse que tu é esquisofrênica !
Tua saga nos hospícios , os tarja preta pra amansar cavalo
A grvidez do tupi-guaraní teu salvador
Gravidez de alto risco, as ameaças do ex durante a gestação
O parto prematuro do teu filho Elvis
Que viveu quase dois meses , tua laqueadura
Voce pulou mas teu irmão teve tempo de te segurar
Teu cabelo joãozinho com manchas rochas
Bem indiazinha , as unhas pintadas
Todo teu tesão , teu carinho , com purpurina
Não imaginas o quanto me tentou
Pra te levar mais eu
Se tivesses me pedido eu não conseguia negar
Destas covardias que agente faz na vida
E jamais consegue se perdoar
E fico mais magoado ainda comigo
Foram só duas noites caboclinha
Rodei duzentos km e não és minha mais
Noeminha minha Cy
Esse saber oque seríamos juntos
É jararaca no garrão , papagaio na jugular
Mas quem sabe um cadinho de sofrimento
Não seja antídoto pros males
Que um mundo de sofrimento nos traz
( Tem essa de ilusão não ! )
Às vezes parece que tem até deus
Botando nói frente a frente
E que tem coisa ruim tomem
Me botando pra correr assim
Sozinho , sem em nem bem

Karai Mirim



À G.R.Dostoievski

Escurinho d`ante manhã , fresca hora do orvalho , embrenhada na mata descansa a anta deita-escorada num pau véio doido , mais prá pista um bando de guariba atrepado cumendo piquiá , dentro d´oco dum toco sonh´a paca suas visagi , na boca da capoeira o mateiro roe o caroço d´andiróba , no terreiro a mucura dá de pau nos marí , nesta penumbra o momento de maior luz , ao leste Apolo azuleia , é plenilúnio , no poente é Jachy dizendo tchau , no breu da casinha um homo quase meio sapiens acende o fogo pro chá , pro peixe , pra macaxeira , pr`ajudar os astros num instante onde todos faróis juntos malemau silhuetam o vulto , quando a memória inda pexinxa as esfinges à Morpheu, liga o motor a Brasília 79 bége, ergue seu herege ronco sobre o festerê da passarinhada .
Neste dia ninguém cumeu piranha , tem muito espinho e gosto de nada , só chupou o caldo bem temperado porém inssôsso , o carro pegou a estrada , deixou pra traz cachorro , gato , papagaio e uma fumaça catinguenta duma gasolina suja a empestear o carburador da vida , senta a púa ! cabeçote baixo , perno fino , 1600 , voa a oitenta , chega à cidadeca , vai ao banco , no caixa eletrônico só mermo o pira-piré que vem de crédito na conta como corda pro caboclo s`enforcar , saca tudo , fica com quinhentão de débito e vai tomar uma gelada ,enche o tanque no posto , já voltando no rumo de casa para na corredeira e dá um tibum que a lua era de rachar , saindo pra BR de novo avista duas quenguinhas - Prondié qui seis vão ? - Tamo vadiando e tu prondié que ta indo ? - Pra casa , bóra ? A Denise diz pra outra : - Vem ele é legal , vai pagar cerveja pra gente ! - Compra cigarro também ? paga cerveja mermo ? - Bóra muleca , cuida que o sol tá quente . " O gaio da roseira " - Ai que musíca horrível ! - Doqueque seis gosta de ouví ?-Forró - Mas isso é forró porra ! - " cintura cintadinha , bem fininha de pilão " - Ai crédo - vai dizê que isso num é forró caralho , seu Lula o rei do baião - Minha mãe escutava essas coisa , tróço velho!
Detalhe , essa madre é quem cuida dos menino dela lá em Manaus , o pai dos pruguélo era traficante e morreu na cadeia , ela é viciada em pasta e veio parar num brega nesse cú do mundo , 20 anos , boazinha de lombo , sempre pinta o cabelo , agora ta vermelho sussuarana , na maior rebordosa , a outra tem 16 e ainda não faz pograma , deve di tá amasiada cum algum véio daqui , fugiu da escola em Rio Preto da Eva e tem quarto alugado na pensão da dona Clara , frente à finada Vitória , a vizinha do lado é a Aninha kill bill , também vive pra fumar méla , peituda e magricéla , vai pro quarto por qualquer 10 , 15 conto tadinha , jura que tem 18 , mora cuns nóinha do movimento que ficam cumendo os viado que passa baguio pra se noiar et coetera e tal , dotro lado tem uns pé inchado da lavra , parecem profétas do final dos tempos , embaixo mora a ninhada da senhoria , a Bréca (pense uma moça levada) , a Martinha , a Veni e o unico varão ( que deus o tenha neste dia de hoje ) 26 anos , 7 filhos , a atual esposa tem 15 e não pesa um quarto do peso dele , esse cabrão é a prova cabal que tem mulher que gosta mermo é de apanhar , bom parceiro de copo , um ótimo rapaz...
Pelo caminho passaram por Massarico o borracheiro , que passara uns tempos pras bandas de Rorainópolis , no 500 , botou venda mas uns caras de moto roubaram alí e ele faliu , uns meses depois acabou o combustível dos bandidos na vila , foi chumbo pra todo lado , morreram os dois que já tinham assaltado muitos naquele trecho , agora ele tá de volta a Pres. Famigerado ( e não no sentido recriado por G.R.) Pararam no Floresta pra pegar umas latinhas na Ursa crente , que já fôra amazona na antiga fazenda Rio Negro , ainda mocinha , já gostou duma cana , enterrou muito marido ...
Seguiram no trecho , passaram o Pedro mentira , esse é dos bão , umas putinhas distraiam os camioneiros na venda , ele tirava a cassiterita dos caminhão do pitinga e jogava num igarapé no meio do mato , chamou um pastor evangélico pra mostrar a mina de cassiterita submérsa , o pastor comprou a mentira cum terra e tudo por um dinheirão , esse cabra apronta cada uma ! ( essa no caso com 100 anos de galardão )
Pararam na venda do Cacau pra deixar um saco de farelo prá dona Juana , passaram o Pretinho , o Maranhão , o cabo Moleiro , o Coromé e alí frente ao ancião jurástico o sítio donde teve início o causo em questão , algo entre Passárgada e Picapauamarelopiriquitoazuldechinélo , traçaram traíra assada , cum farinha é claro , pimenta , castanha , mandumbim e o tal caldo da piranha , a oncinha ( kenga ) queria uma oncinha ( de 50 ) , foram pra briga e nada , o tacape do tarzã tava mais triste que maria mole de clara em neve dos balcões de buteco do final dos anos 70 , depois as coisas mudaram , não se viam mais guloseimas de abóbora e batata doce roxa de casca dura , apareceu o dipilique e com ele chocolates e chicletes que foram substituindo o dadinho , o arroz doce e o pé de moléque , mas retomando a brochada , como ia dizendo , naquele dia ninguém cumeu piranha...
No retorno prá Pres. Fica o medo , deixou as meninas na pensão e largou pro bréga tomar umas , jogou uma sinuquinha no Tamanduá , topou a Alva no brega da mãe dela , a Preta , todas filhas são da vida , buchuda de 7 meses do terceiro filho , tem 19 , entrou na profissão com15 , na manhã em que pariu o segundo rebento tinha varado a noite fumando méla , tava alí tumando uma celvejinha e convidou o abestado pra alugar um quarto e passar a noite com ela , tinha ficado jogando cunvérsa fora cum corôa gente boa foragido da Gambôa , aliás , ele admite sê-lo , a maioria aqui o é sem admiti-lo , se os ómi batesse a ficha de cada peão rodado nesse buraco isso aqui ficava era vazio , já eram duas e meia , mas oque queria realmente a Alva era ficar fumando pasta a noite todinha cum as amigas dela , eram tres putinhas , duas prenhas , uma de 5 , outra de 7 meses , quem num tava era a ciganinha , foi pro uqarto cum nego véio mais bêbo que gambá quando vira carga de coróte , a surucucu de 5 meses tava com um rapaz dos canaviais , acabara de pegar salário , tinha muito oque depenar , a Alva acabara de limpar os derradeiros 10 real do cabra da brochada pra pegar uma paranga do tal mélobrega , fumou , fumaram e fumaram até que só o corôa tinha tostão , a ciganinha provocava p´los cantos do quarto , tavam todos no mesmo muquifo , a nóia dela era coçar piolhos imaginários na cabeça cum cara de retardada , sorrindo , a questão era a seguinte , tinham que dispensar o panaca da Brasília bége pra Alva ajudar a ciganinha já fora de sí , a limpar o negão , o dito que se individara estava lizo e bravo porque Alvinha não ia pro quarto com ele , ela mandava esperar , e ele heróicamente disposto a passar o maior papelão da estória , dizia : -Vou acordar o seu Félix ( o senhorio ) Pra me mandar ! Euréca ! a surucucu do brejo então de 5 meses pegou logo , gritou : - Seu Félix , tem um aqui que num deixa ninguem dormir em paz ! - Ela ta mentindo seu Felix , é a Alva que não quer ir pro quarto ! - Pois pegue o dinheiro de volta e se manda daqui ! Dizia a mãe pra filha - prá isso que voce quís fica aqui ? e como é que vai dar de comer amanhã pros teus menino ? o pobre diabo choramingando dizia - se num vai fazer isso cumigo né alvinha ? bóra pro quarto ! - cadê teu dinheiro ? - mas já me devia o programa alvinha ! arremata a surucucu de 5 meses - é num tem dinheiro se manda!
Ronca o motor 1600 na cidadéla morta , rasga a noite no rumo de Boa Vista , uma sinfonia hermética e aparentemente caótica , no extremo do dionisíaco onde abraço seu oposto suposto , sob o clarão do luar e o cintilar d´estrelinhas sem cabo , em láctea sudeste noroeste ou leste oeste que seja , pé na tábua em negra rodovia , a paca apanha o buriti , os catitu pr´arriba da nascente comem a sóva , aquela anta que dormitava ao alvorecer devóra a bacatarana na brenha do rochedo...

Karai Mirim

Dedicado im memoriam a um recente e jovem amigo (fi) Naldo


" Por tras de los silencios quedará
Y no mas , nunca mas , volverá "
El Condor Passa

Pronde foste ninfa querida ?
Se o amor é tão grande cumé que cabe tanto banzo
Num tekoa tão pequeno , pruque tantos desencontros ao coração ?
Segue nas aguas do Renno um canto de delírio
Alva Yara dos raios de sol no trigo maduro

Nunca almejaste sequer uma palha do terivel monte de feno
Sonhas-te minha casa soterrada e tiveste medo
É que vinhas no sopro de Yansã e já me enchergaste de tua estrela
Pequena princesa d`além mar , nossa terra sem males
Cada semente que plantei não há como impedir que cresça
Plante aí umas rocinhas pra quando for minha vez comer um milho perfeito
Quero abraçar-te e eres véus , vou beijar-te e tua boca é neblina
Vês quantas santinhas já tenho a desviar meus pés dos tocos de tantas travessuras ?
A novilha sem mácula logo é segada , cedo o gadanho ceifa-lhe a luz
Duns oio curiscante , claros sem fundura
Amante das almas vem o machado de Xangô e termina de picotar-me o peito
Lisinha a pele , a carne fofa e quente , dentes de via-láctea , descalços os pés
Sobre o asfalto de Bonn , os paralelepípedos de Cuzco
As areias do desterro , os pirilampos das contelações
Ré a vida não dá
qui - lo mas Hades não o quís
em que vai dar tudo isto meu Deus ?
E se tivesse um deus deixava isso assim é ?
Se ele sabe oque faz é um cabra muito sem piedade ( corno fio d´ua égua )
( Cronos ta no Tartaro e o senhor trate de abrir o olho degranhento ! )
Dizem ainda que mau é o concorrente
( mas o chofér num teve curpa né Iracema )
A pena de Prometeu era sofrer e não morrer , me cabe latejar até espocar as chagas
Quando tomo a rasteira não tenho ombro nem bengala
Na cara boa pra bofetada a arcaria cada vez mais banguéla
Diz aí assum preto , oque repetes na meia noite que apavora
Se ao menos a passarada se invernasse nos ninhos
Gorgeiam sua fésta , não sabem de porra nenhuma ou sabem demais
Oque daria no mesmo , mas num é nada disso
São elas representação de Hermes , a suástica pré-histórica das alucinações
Exú das encruzilhadas , o canto sibilante é o aviso
O grito , o choro , o signo d´algúrio
Do desesperado perdido na mata e de quem desesperadamente o busca
Primavera , lua nova desgraça crescente
É seu Camões , o dia em que nascemos morra e pereça
A minha ninfa tão asinha também não posso ver , nem um bréve engano...
Tão cedo de cá me leve a ver-te... Antes que Amor me mate...
Para isso só nasci... ecos ardem doídos demais
Neike Tupã qweru ! chora o céu , rega a terra tão amada
Que dá de cumê e come nóis , o mal prevalece , um mar funesto
Gela o sangue , o pressentimento foi o pesadelo que me contou
Disseste preu tomar cuidado e nem desconfiávamos ser prá ti o sinal
Fui coberto de barro , metade de mim , ostra vez puxam o tapete
Fica proutra vida , dern`Ares e Afrodite já foram tantas
Quando foste a mais sábia entre os Incas ou quando fui lhe resgatar
E desgraçadamente olhei pra trás , nas lutas contra a nobreza e as oligarquias
É repregar a velha ruta , rôta de tantas rotas , dum vaguear sem rumo
Do sentimento mais puro , alargar a passada ( quando descansaremos juntos ? )
A pontada aguda só o canto expia , expira a buscar passarinha tua flauta encantada
No Andes mais proxima ao firmamento , no féretro sobre teu seio meu retrato
Né neguinha ?
Ni nguem te substitui
A éve´i

Karai Mirim-mirim-mirim...