POEMAS DE TAKASHI WAKAMATSU
Takashi Wakamatsu é poeta, nascido em São José dos Campos em 11/11/1976, hoje radicado no Amazonas.
Filho de Maria Amélia Wakamatsu e Riujy Wakamatsu. Sobrinho de Valmir Camargo.
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Antes que seja tarde demais (um
apelo aos que tiverem ouvidos) A
melhor escola para nossos filhos A
palmeira além de palmito piso e ripa Dá
frutos excelentes e nisto ela é phd Dá
buriti, açaí, bacaba, pataua, tucumã, pupunha... Elas
abrem suas folhas para a luz do sol Que
junto à terra na raiz serve-lhe de alimento Dá
cachos em abundância Conforme
seus ciclos e suas normas As
condições de clima e solo podemos fornecer Podemos
confiar na planta que ela dá Suas
pencas de vinho, tetas de leite roxo Provem
com alegria e satisfação Temos
de aprender com as arvores A ficar
felizes quando fonte Quem
usufrui dela são as aves A astúcia
é nossa asa Por
isto também desfrutamos como os macacos Subir lá
no alto para ordenhar o milagre E só
em caso de muita abundância Ciente
na sabedoria Cortar
um ser assim tão bom Quando
vamos construir nossas casas Quando
precisamos prá comer e não pra vender E
nossos filhos precisam saber também Entrar
com as palmeiras em seus sonhos Para
brincarem de paisagistas no jardim interinp Onde
oniscientes habitamos o sol Há na
cabeça junto ao miolo Um
lindo quintal ou uma caverna Ou um
palácio se preferirmos É o único
lugar realmente seguro Ali
podemos ficar tranqüilos Lembremos
a castanheira, a araucária, beribá, cupu Guabiroba,
caju, goiaba, abacaxi, maracujá Cascas, raízes,
seivas, cipós Erva mate, tabaco, macaxeira, gerimum, amendoim,
batata doce Milho As coisas de
troca elementar e essencial Irmãs que
nos sustentam nesta passagem Vegetais o
tempo todo a nos auxiliar Produzem o
oxigênio nas algas, nas folhas Do alento a doar-nos vida |
Desesperança
Desesperança
Medo
Ensinaram o ficar calado
O não lutar solitário
Contra o instinto
Alucinado da luta
As armas e as prisões
Animais castrados
Bebes de proveta
Criatividade atrofiada
Moral do trabalho
Escravidão paga
Cravos da roseta
Azia aérea
Assim não há como haver
Sentido nem conteúdo
Votar
no diabo ou nestes candidatos A
nos governar, dá no mesmo O
próprio não seria tão diabólico Sabemos
quem sempre quebra a cara E
mais uma vez sequer levantaremos um dedo Para
nos defendermos destes que sem titubear Sacrificam
crianças nos altares da fome Agora,
quando apontam o buraco Corremos
pra ele como se fosse a coisa mais certa Do mundo a se fazer
Encontrados ou perdidos
Encontrados ou perdidos Nos
encontramos neste mundo Na
maior parte das vezes desconexos Da
ordem natural Só
na perdição do amor finda-se a busca Fica
claro ali o estarmos à deriva Num
eterno entroncamento E
se incomoda a agonia no silêncio e solidão Continuarei
em velado labor Chutando
de bico Cada
vez mais forte No
calcanhar de Aquiles da engenhoca Tão
amada dizem as más línguas
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Extra ! Extra ! Exclusivo, fato fenomenal hoje no diário de Goiabal, depois de anos anunciando óbitos de vez em quando, finalmente um furo, uma notícia sensacional: Égua é comida por tubarão atravessando igarapé ao lado do cavaleiro. Vamos aos fatos: Estamos aqui no exato local onde esta manhã, às sete e setenta aproximadamente Do dia dez de eneiro de mil novecentos e alguma coisa, égua da raça dos pangarés é impiedosamente devorada por tubarão faminto, em respeito a sua dor não entrevistaremos o cavaleiro, conseguimos apenas uma comovente declaração: - Essa égua era a minha vida. Desculpe telespectador Mas não pude conter as lágrimas diante... Já no céu
a coisa foi diferente, nosso jornalista de plantão São Beto Monstro
Marinho, que pra subir até os bem aventurados se disfarçou de
arcanjo, por sorte ninguém notou o rabinho dele; Como foi pra
senhora dona égua? -
Olha seu doutor, foi uma maravilha, Eu só fazia carregar peso o dia
inteiro, tomar esporada, reiada, chicotada, era um inferno, inclusive o
sinhô deve di tá sabendo muito bem cumé que é agora que habita o próprio
né, já o céu é o céu essa belezura Ihh! Ihhh! (relinchos ). Enquanto
assistiam a essa entrevista pegamos uma jangada
e fomos atrás do verdugo tubarão, tentamos nos informar com um
cardume de tainhas mas na hora que ouviram a palavra cação debandaram
desarvoradas , foi o caranguejo que delatou : “ É, passou por aqui hoje
cedinho, indo do mangue pro mar, arrotava e fumava um porronca, tá
sesteando mais alí numa gruta, mais adiante o encontramos, ficou furioso
porque o acordamos em meio a sua siesta e bradou: -
Comi mesmo, era uma potranca, ô carninha mais dura, era só músculo e
nervo mas deu pra fazer uma boquinha huc! huc! (soluços). Acabamos de
ouvir de primeira mão a declaração do dito cujo, vejam vocês o sangue
frio deste peixe. Ficamos por aqui , termina mais um programa da Rede
Goiabal de notícias, a voz do povo goiabense, fiquem com nossos
comerciais e até amanhã . |
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Lembremos o passado
Lembremos o passado Sempre–sempre repassado Repensado como eco Que o presente eterno Depende do vigor da memória Interno sempiterno Quando teve início a abertura? Afrouxaram os grilhões da
ditadura Um povo pra saber de si precisa
aprender Tudo quanto vale a
liberdade Hora de passear no inferno Se inferno nele esta o erro Nele esta a cura Hora de seguir ao céu Se céu nele esta curado Secura é sertão, pampa, mata Ermo onde somos desertos Somos nós mesmos e uma nação Quando escolhemos àquele que
nos ia governar? Aquele a quem todos queriam O velho mineiro assassinado Por aqueles que não largam o
osso Hora de mergulhar neste fosso Para ser fortes tomar o sangue
grosso Do salvador no vinho secreto Abramos o inquérito Riscar os decretos decrépitos Seguir à risca a constituição Dos dois primeiros mandamentos Que bastam e arrebatam E arrebentam qualquer grade Ascendem qualquer coração Se abrimos aberto está Chamemos às portas da verdade Pra ver se nos deixam entrar As chaves são as palavras
certas Dirigentes da intenção A mão na maçaneta é a entonação,
a vibração A reverberação ressonante, a
devoção Sem trégua questionar a regra Quem tem fé não se entrega Prega os próprios pés na cruz E onde brotaria o pus Resplandece em luz Suspiro, sopro, assovio, susss... A raiz esta no negro, no índio Mestiço, caboclo, mameluco Feijoada completa, somos todas
as raças Latim com tupi Cristo-Tupã Cisne no tucupi Modinha, lundu, carimbó Baião, choro e rasqueado Os cantos verdadeiros De nossas gentes verdadeiras De nossas aves a cada
tansmontar Evoco o jeitinho de lidar Driblar na malandragem Sem que a bola saia do lugar Bem vindos os brasileiros de
alma Todos que queiram se
abrasileirar Nossa pátria é teta farta O único ouro real na terra É ar puro, solo fértil, água
de beber camarada Não vamos nos submeter Mas esta tudo certo Tudo sempre como deus quer E o que ele quer é transformação Caiu a mascara do pateta O mundo cansou do papelão Trocar o disco, mudar a dança Quem somos nós? O que faço a respeito próprio Diz respeito a tudo que somos Não somos mais que gente Querendo sentir sempre mais Ser um consigo para ser um só Com os demais que não serão
mais demais Atados na corrente do amor A única que liberta Aberta, correta meta Seta siga nesta direção
encantada Cheguem as maravilhas deste alívio A seiva escalando-nos as vértebras As flores com mais pétalas Nas costas das folhas Um canto de silêncio vem
sombrear as almas Vem desvelar o clarão Um espírito de serenidade Benção amazônica Herança ancestral Aparentemente há muitas sendas
para o Éden Cada mito leva um nome diferente Mesmo com o mesmo fito Fito a madrugada bonita Mesmo fria, úmida, nublada Mesmo sem lua Mesmo escura a madrugada Vamos sorrir na desgraça Que na graça estaremos graves Riso consciencioso Com muito discernimento e ação Rédeas curtas, arredios sem
moleza E que nada fique pra amanhã Afinal herdamos a espada de
fogo Celebremos o pão multiplicado Carne do milagreiro regozijado
em no-la-dar Osíris, Orfeu Façamos o sacrifício diário De morrer e renascer pela vida Sem medo da morte Encarando a temerosa sorte Já que mostramos as cartas
Contemos
todas antes de guardar o baralho Pra ver se nada ficou escondido
na manga Encerrado esta, o jogo de
garimpeiro De revolver cavando, peneirando Atrás da pedra preciosa Sempre procurando, buscando Devolvamos à terra O que dela é |
Porque tenho de pensar-me, é castigo?
Porque tenho de pensar-me, é
castigo? Lembrar das
coisas que disse E me
perguntar porque não fiquei com o bico fechado Sentir
vergonha minha diante de mim Desconhecer-me
no ato E depois na
hora do dar-se conta Preferir que
nunca me desse conta de porcaria alguma As pessoas
que admiro em suas virtudes Que sou
incapaz de imitar Se tivesse um
tesouro qualquer Daria-o por
esquecer-me O dia em que
desaparecer Terei
me encontrado Estarei
plantando batatas
O dia em que desaparecer Saibam
que me encontrei Estarei
plantando batatas
Nada faço
Nada faço
como sempre E assim
será Arvorem-se
a juizes Os
baluartes da moral A peçonha
da zombaria Daqueles
que consideram-se o que há de melhor Nada
tenho desde o nascimento E nada
terei
O verbo
ter Normalmente
compreendido É um
tremendo equívoco Nunca
fui um infelizmente Parcela
integrante e ativa
Meio
deslocado Fui
mais um A não
chegar nem perto De
saber quem ou o que sou
Nada
fiz por não encontrar O que a
meu ver Valesse
a pena ser feito
Mas
agente vai se vacinando E a
vida vai virando um troço Cada
vez mais interessante
Tornar
Tornar-me um homem sadio Não
um homem comum e doente Poderia
dançar com os pés atrás da cabeça Trabalhar
por prazer, estudar, ir em festas Enfim
ser alguém explicitamente especial Abandonar
esta esquisitice onde calei-me a vida toda Pensam
que saí de trás destas muralhas Ilusão,
posso enganar a todos menos a mim Pus
um pé pra fora do portão e dei uma olhada E
agora estou aqui pensando se dou o outro passo Mergulhar
de cabeça Se
algo me ferir poderei voltar acossado Para
lapidar no gelo escuro os hinos da angústia Saberei
cantar o prazer Com
tanta potência quanto abafo a dor? Encima
do muro entre eu mesmo e o mundo - Alguém me empurre!
O menino perguntou ao velho:
O
menino perguntou ao velho: -Por
que não beija a velha como o jovem à menina? O
velho esta cansado de sua cara Nos
olhos e na cara enrugada da velha Que
já não agüenta mais a cara da morte O
menino não entendeu O
adulto intuiu e gemeu calado O
adulto perguntou ao velho Por
que o prato tinha sempre que estar Exatamente
naquele lugar e os palitos acolá?
O velho disse que tinha que ser assim por que tinha e pronto O
adulto não entendeu O
menino gostou da resposta e sorriu Quiseram saber porque o velho nunca sabia onde
deixava as coisas
E por que diabos deveria eu saber onde estão as coisas? Ambos
não entenderam Mas
tiveram a quase impressão De
que a velhice é a infância duma outra vida
Cerra-se a cortina
Cerra-se a cortina, umbral
Sonho derradeiro, sem sono mais
(ou dum portal o abrir-se)
Evóco-vos tranquilo
Óh aves invisíveis do dia-a-dia
Irmandade silenciosa
Deixai erguer-se a flama
A compreensão descarnada
Estando em carne viva arde
-- "O que acontece? por onde ir?"
Nunca se sabe, alegre nem triste, isto
A luz vela e às vezes até
Faz crer um trilho
Mas é o caminho da água
Vai da fonte pro mar
Ô verãozinho pra chover!
Pra compensar o inverno seco
Que seria o sinal do fim
Manda São Pedro! to te escutando
-- "Dê-me a mão, não sei nadar!”
A pensar ser o que já não se é
Ver que não se é o que sempre acreditara ter sido
Almejar permanência após romper-se o elo
-- "Que fazer dos desejos? onde o prazer? "
Deixai nos ossos as emoções
Que lhe digo se há janelas Onde os degrais do áureo desvão
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Sonetos |
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As almas aladas anunciam-te
As mesmas que cantam tua nênia
Até aqui és irmã gêmea Do
teu reverso claro e brilhante
Na fala brasileira és fêmea
A flauta do urutau te encante
Para embriagar este bacante
Argênteo luar, amante me`a
De grave
insônia és o berço
Falso escape deste labirinto
Refresca-me tua aragem fria
Quanto mais neste abismo desço
Mais domina-me sombrio instinto De temer a claridade do dia
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Logo atravessar a estrutura Descer
degraus até a enxovia Canta subterrânea
cotovia Versos duma
secreta escritura Alta via
verticalmente ínvia Medir nossa
terrível quadratura Formão devorador
da escultura Aos golpes
que o porrete envia Desprezo à
orgia sedutora Não tarda
afundar este navio Esta
desviadora geringonça Voa a
dentadura que estoura Acendo na
peruca o pavio Cutuco com vara curta a onça
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Onde a força mesma jaz secreta e calma
Onde
a força mesma jaz secreta e calma Impulso
do roto trecheiro de vila em vila Atrás
de mais estrada, uma cana e seu balde de churume A
tal da gravidade faz o igarapé salgar O
calor potencia do sol esconde outros sóis Nuvens
a mover os ventos, a lua é o yô-yô do mar Deve
haver uma grota imemorial com esse combustível etéreo Este
outro diamante, um indestrutível Esse
embalar dum trato com a foice Com
Pã e toda cambada do Olimpo Guerra,
amor, loucura, fúrias, musas O
uivo do lobo é o gozo do gemido na presa Perscrutar
de tocaia, perseguir, abater, matar Engendrar
a semente no chão e cuidar Esse
sentar-se pra pitar, este pacto O
milho vindo a prole se indo Pelo
mundo afora com as próprias pernas E
acua-se o medo temendo tanto ímpeto Foge
o banzo diante da alva de áfrica Seu
lugar na tribo e na savana, a liberdade de lutar entre leões O
planeta é plano desde quando ganhamos asas Senta
a pua! Avião avua, a cordilheira é o ninho Do
pássaro imenso que voa alto, voa com ardor, com motor Mergulhar
em azul de ceu e mar, em verde de floresta perder-se À
mercê da sussuarana e da sucurí, em picumã de tempesta grossa E
gruta funda, onde as inscrições ancestrais Nesse
molho, essa caldeira borbulhante Deita
lenha, gira a pá, tempera Da
agonia de morrer-se a cada instante em que se esta só demais Do
desespero de não se tocar carne palpitante E
suar e morder e perpetrar O
feijão ha muito plantado um dia o orvalho germina Vargem
madroça, eira, manguá, crivo, panela, peido O
destino-intestino inefável do grão de regalo da terra Uma
mãe com leite, porra, lama, sangue e lágrimas Com
todo amor e carinho no final das contas Devora
e digere cada filha, cada filho E
tanta gente nasce e sente o bafo do verão Os
braços são os tentáculos do polvo, da lula Os
galhos do gapuvuru, as folhas da embaúba as mãos O
pé é asa de toguató e urubú Boca
poço do morro, sumidouro da lagoa Frutas
comidas pelo tempo, bicho engraçado Cria
prá si um oleiro olheiro, desvairada fantasia da imaginação Castelo
de pedra, fossa e muralha Alí
minha fábula de encanto, com a Medusa e a Cuca no calabouço Pra
atingir o tesouro labirinto com touro Xô
tédio nesta esquizofrenia saudável Aldeões
do queijo e do pão Donde emana o êxtase do vinho jamais pisado?
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A casa caiu Era o tresouro mais valiouso Ouro , platina , diamante , é pouco ! Pensava que era o amor Que fosse rabicho , encanto ! Nada vale mais Cavalo de pomba gira Do lado de baixo do equador Era uma placa fina Minha mão segurava dum lado Outra segurava do outro Est`outra mão largou de mão Pra acender um cigarro ou sei lá Foi-se pro charco tudo que mais prezava Desprezo ou menosprezo Crassa desconsideração De graça meu tudo afundou Impio coração , casta leprosa Inapta ao melhor Em nome do trocadilho Nervos putrefeitos em formol Excremento e enchofre no meu peito No rosto atônito Um arrôto seguido de vômito banal Karai Mirim |
A criança A criança faz da mao um ninho Tem ali um ovo de vidro Mas pequeno e redondo Castanha pupila cristalina A bolinha de gude ele mostra Qual seus olhos transparentes ela transluz Com fios de capim doirado Com um solzinho brilhando no meio Ou ele traz no rosto duas bolinhas mais Ou traz na palma da mao Um terceiro olho O olhar com que enfatiza o brinquedo Faz dos tres um Tem uma fila de moleques Cada um amostra a sua Galhofeiros , miudos Karai Mirim |
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Aos trancos Aos trancos ( fura o pneu ) E Barrancos ( caio eu ) é a saga de Dom Quixote O Pancho é de palha O cavalo tem rodas Agora tem trem pra tentar fugir ao calor , à estrada Mas nada , nao ha como escapar Dali vira o delirio Do sol Na planicie extensa de parreirais Uma bela chaqualhada Pra assenta os sedimentos do solo Baixar a altura , endurecer o chao Com longitudes e vinhos Barbaro sem fogo , sem lingua nem toca Caçando diariamente tudo e nada Sem caça , com fome , sem Dulcineias Nem agua nem cao Exposto a mouros , bascos e javalis à merce das mares e do verao Cada dia mais pobre , a cabeça mais fraca O corpo mais cansado Quisera ouvesse outra vida ( e nela um reino do ceu qualquer ) Karai Mirim |
Nomade Nomade , malemau consigo comunicar-me c'oa gente Palhaço maltrapilho , uns riem , outros olham desconfiados Os pirralhos tem olhar de vaca , fascinados Segue o bufao na bicicleta velha Agora o espantalhinho é Virgilio As bermudas rasgaram na bunda As camisas encardidas , manchadas de vinho e graxa Escondendo-se pra dormir nos esconsos nos fins de tarde Sujo da poeira grudada no suor seboso Sempre acuado pela agressividade do receio Da maioria incapaz de computar a estranha figura Sigo na apaziguada raiva duma solidao cada vez mais solida Cada dia muito mais selvagem Perdendo a linguagem , oque afasta o mundo Quando sinto um pé atras saio fulo , saio batido Cada vez menos travo contato com as pessoas Nao consigo mais sentar num bar e tomar um café Pedalo , rumino paisagens Karai Mirim |
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Taça de fino cristal Os olhos nao me repreendam O sentimento nao estranhe nem receie Nao sois menos esquisitos saibam As mentes nao condenem a persona O seio esta em carne viva bucho aberto Nao sejam varejeiras a colocar ovos Uma bicheira seria fatal Os nervos mau encapados Dao curto circuito às vezes A mera tirania sutil das emoçoes Arranha com outro espinho esta carne Oh gatos , cuidai vossas unhas ! Perdi a força bruta , a guarda caiu Nao adianta meter a testa , tento esquivar Salto , voo , deslizo , razante de ave Estou a ouvidar o veneno da cobra Deixem-me ser nu , sujo , à toa Ja nao alcanço mais em cima do armario Karai Mirim |
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O segundo tempo não importa , trata-se do assassinato dum velho mineiro pela corja de coronéis vampiros
Prorrogação ( vem num crescendo o som da bateria duma escola de samba , no coro os vates pegam em surdos , tambores e tamborins , apitos... ) Surge numa tela ao fundo a Liberdade ( Aquela mulata do tapa sexo que ninguem viu ) Voam confétes e serpentinas , todos dão um grito em uníssono : Viva à Liberdade ! ( ela entra rebolando sua abundância a ofender às Deusinhas do Olimpo ) Apologia à mulata melancia Na péle adivinha-se o cacau e o melado Doçura e amargor em seios fartos e férteis Trazes neles o leite da vida , ambrosia do amor Quem não viu no carneval de 2008 ? Se havia ou não tapa sexo foda-se Imoral é tapar o sítio sagrado Receptaculo do semen , urna da criação Onde opera a natureza o maior milagre No papel de india cabocla negra lisinha Tua nudez foi castigada como vaticinara o grande dramaturgo Morena tentação por quem se perdem as almas dos castos Tua miragem a sambar na avenida Teu brilho de purpurina e suor O azeite e o sal a temperar teu corpo Nepente universal tua saliva , teu gozo Acendes sim o desejo , o mais chão Pródigas nádegas num quadril de pura generosidade Só lhe ví poucos segundos na tvlizão a rebolar tanta graça E rendo-lhe esta homenagem de santa admiração Vasculha-se tanto lodo e lama pra se encontrar tão raro acepipe - " A rranjei um freseado , que já guardo decorado , para quando te encontrar , Como é que voe se chama , quando é que voce me ama , onde nós vamos morar " Noel |
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Cordél de Severino De febre fort`altardo Balanga a rede cai os pau A clareirabre num brado Enxofre , salitre e sal Morno sangue mergulhado Retiescurumbral Por berço u`a negra nau Lepra , colera , escravidão Salvas estão nossas almas Bola na bucha do canhão Ululante miséria Abre-se ao mar o alçapão Da doce cana o fogo D`ardente tibirita Máquina dinguinorança Que nos impossibilita Prende mais que corrente Est`agua maladicta Sempre apretando o cabresto Espetaculo da chibata Sem fala , livro , história Sem chão sem teto nem mata Basta a pestilencia moral De dentro nos arrebata Vamos todos passear Neste auriverde parque A carne de cada um No seco sertão é charque Pra parar na prateleira Poque se és "mau " , marque! Merreca de troco da mermo Só pro bicho e cachaça Meus filhos de mãe solteira A brincar de ladrão na praça Chega os puliça em cima Ai meu deus que desgraça Por tudo é só trupeço Tapa supapo e repelão Na sopa de terra e chuva Pedaço de préda é pão Ganha-se a vagar por aí Catando lata e papelão Sózinhos sempre mais e mais Por companhia o porronca A velha buchuda amargou Pariu e segurou a bronca Alguém quebrou o silêncio ? É a barriga que ronca Tanto o pai como o avô O bisavo foi peão tambem De rasto , de pé , de mula Partimos todos pr`além Ouví este severo hino Livrai-nos do mel amém Apita o juiz , fim de jogo Karai i |
Putakeupariu! Karai Mirim |
À G.R.Dostoievski Escurinho d`ante manhã , fresca hora do orvalho , embrenhada na mata descansa a anta deita-escorada num pau véio doido , mais prá pista um bando de guariba atrepado cumendo piquiá , dentro d´oco dum toco sonh´a paca suas visagi , na boca da capoeira o mateiro roe o caroço d´andiróba , no terreiro a mucura dá de pau nos marí , nesta penumbra o momento de maior luz , ao leste Apolo azuleia , é plenilúnio , no poente é Jachy dizendo tchau , no breu da casinha um homo quase meio sapiens acende o fogo pro chá , pro peixe , pra macaxeira , pr`ajudar os astros num instante onde todos faróis juntos malemau silhuetam o vulto , quando a memória inda pexinxa as esfinges à Morpheu,
liga o motor a Brasília 79 bége, ergue seu herege ronco sobre o festerê da passarinhada .
Neste dia ninguém cumeu piranha , tem muito espinho e gosto de nada , só chupou o caldo bem temperado porém inssôsso , o carro pegou a estrada , deixou pra traz cachorro , gato , papagaio e uma fumaça catinguenta duma gasolina suja a empestear o carburador da vida , senta a púa ! cabeçote baixo , perno fino , 1600 , voa a oitenta , chega à cidadeca , vai ao banco , no caixa eletrônico só mermo o pira-piré que vem de crédito na conta como corda pro caboclo s`enforcar , saca tudo , fica com quinhentão de débito e vai tomar uma gelada ,enche o tanque no posto , já voltando no rumo de casa para na corredeira e dá um tibum que a lua era de rachar , saindo pra BR de novo avista duas quenguinhas - Prondié qui seis vão ? - Tamo vadiando e tu prondié que ta indo ? - Pra casa , bóra ? A Denise diz pra outra : - Vem ele é legal , vai pagar cerveja pra gente ! - Compra cigarro também ? paga cerveja mermo ? - Bóra muleca , cuida que o sol tá quente . " O gaio da roseira " - Ai que musíca horrível ! - Doqueque seis gosta de ouví ?-Forró - Mas isso é forró porra ! - " cintura cintadinha , bem fininha de pilão " - Ai crédo - vai dizê que isso num é forró caralho , seu Lula o rei do baião - Minha mãe escutava essas coisa , tróço velho!
Detalhe , essa madre é quem cuida dos menino dela lá em Manaus , o pai dos pruguélo era traficante e morreu na cadeia , ela é viciada em pasta e veio parar num brega nesse cú do mundo , 20 anos , boazinha de lombo , sempre pinta o cabelo , agora ta vermelho sussuarana , na maior rebordosa , a outra tem 16 e ainda não faz pograma , deve di tá amasiada cum algum véio daqui , fugiu da escola em Rio Preto da Eva e tem quarto alugado na pensão da dona Clara , frente à finada Vitória , a vizinha do lado é a Aninha kill bill , também vive pra fumar méla , peituda e magricéla , vai pro quarto por qualquer 10 , 15 conto tadinha , jura que tem 18 , mora cuns nóinha do movimento que ficam cumendo os viado que passa baguio pra se noiar et coetera e tal , dotro lado tem uns pé inchado da lavra , parecem profétas do final dos tempos , embaixo mora a ninhada da senhoria , a Bréca (pense uma moça levada) , a Martinha , a Veni e o unico varão ( que deus o tenha neste dia de hoje ) 26 anos , 7 filhos , a atual esposa tem 15 e não pesa um quarto do peso dele , esse cabrão é a prova cabal que tem mulher que gosta mermo é de apanhar , bom parceiro de copo , um ótimo rapaz...
Pelo caminho passaram por Massarico o borracheiro , que passara uns tempos pras bandas de Rorainópolis , no 500 , botou venda mas uns caras de moto roubaram alí e ele faliu , uns meses depois acabou o combustível dos bandidos na vila , foi chumbo pra todo lado , morreram os dois que já tinham assaltado muitos naquele trecho , agora ele tá de volta a Pres. Famigerado ( e não no sentido recriado por G.R.) Pararam no Floresta pra pegar umas latinhas na Ursa crente , que já fôra amazona na antiga fazenda Rio Negro , ainda mocinha , já gostou duma cana , enterrou muito marido ...
Seguiram no trecho , passaram o Pedro mentira , esse é dos bão , umas putinhas distraiam os camioneiros na venda , ele tirava a cassiterita dos caminhão do pitinga e jogava num igarapé no meio do mato , chamou um pastor evangélico pra mostrar a mina de cassiterita submérsa , o pastor comprou a mentira cum terra e tudo por um dinheirão , esse cabra apronta cada uma ! ( essa no caso com 100 anos de galardão )
Pararam na venda do Cacau pra deixar um saco de farelo prá dona Juana , passaram o Pretinho , o Maranhão , o cabo Moleiro , o Coromé e alí frente ao ancião jurástico o sítio donde teve início o causo em questão , algo entre Passárgada e Picapauamarelopiriquitoazuldechinélo , traçaram traíra assada , cum farinha é claro , pimenta , castanha , mandumbim e o tal caldo da piranha , a oncinha ( kenga ) queria uma oncinha ( de 50 ) , foram pra briga e nada , o tacape do tarzã tava mais triste que maria mole de clara em neve dos balcões de buteco do final dos anos 70 , depois as coisas mudaram , não se viam mais guloseimas de abóbora e batata doce roxa de casca dura , apareceu o dipilique e com ele chocolates e chicletes que foram substituindo o dadinho , o arroz doce e o pé de moléque , mas retomando a brochada , como ia dizendo , naquele dia ninguém cumeu piranha...
No retorno prá Pres. Fica o medo , deixou as meninas na pensão e largou pro bréga tomar umas , jogou uma sinuquinha no Tamanduá , topou a Alva no brega da mãe dela , a Preta , todas filhas são da vida , buchuda de 7 meses do terceiro filho , tem 19 , entrou na profissão com15 , na manhã em que pariu o segundo rebento tinha varado a noite fumando méla , tava alí tumando uma celvejinha e convidou o abestado pra alugar um quarto e passar a noite com ela , tinha ficado jogando cunvérsa fora cum corôa gente boa foragido da Gambôa , aliás , ele admite sê-lo , a maioria aqui o é sem admiti-lo , se os ómi batesse a ficha de cada peão rodado nesse buraco isso aqui ficava era vazio , já eram duas e meia , mas oque queria realmente a Alva era ficar fumando pasta a noite todinha cum as amigas dela , eram tres putinhas , duas prenhas , uma de 5 , outra de 7 meses , quem num tava era a ciganinha , foi pro uqarto cum nego véio mais bêbo que gambá quando vira carga de coróte , a surucucu de 5 meses tava com um rapaz dos canaviais , acabara de pegar salário , tinha muito oque depenar , a Alva acabara de limpar os derradeiros 10 real do cabra da brochada pra pegar uma paranga do tal mélobrega , fumou , fumaram e fumaram até que só o corôa tinha tostão , a ciganinha provocava p´los cantos do quarto , tavam todos no mesmo muquifo , a nóia dela era coçar piolhos imaginários na cabeça cum cara de retardada , sorrindo , a questão era a seguinte , tinham que dispensar o panaca da Brasília bége pra Alva ajudar a ciganinha já fora de sí , a limpar o negão , o dito que se individara estava lizo e bravo porque Alvinha não ia pro quarto com ele , ela mandava esperar , e ele heróicamente disposto a passar o maior papelão da estória , dizia : -Vou acordar o seu Félix ( o senhorio ) Pra me mandar ! Euréca ! a surucucu do brejo então de 5 meses pegou logo , gritou : - Seu Félix , tem um aqui que num deixa ninguem dormir em paz ! - Ela ta mentindo seu Felix , é a Alva que não quer ir pro quarto ! - Pois pegue o dinheiro de volta e se manda daqui ! Dizia a mãe pra filha - prá isso que voce quís fica aqui ? e como é que vai dar de comer amanhã pros teus menino ? o pobre diabo choramingando dizia - se num vai fazer isso cumigo né alvinha ? bóra pro quarto ! - cadê teu dinheiro ? - mas já me devia o programa alvinha ! arremata a surucucu de 5 meses - é num tem dinheiro se manda!
Ronca o motor 1600 na cidadéla morta , rasga a noite no rumo de Boa Vista , uma sinfonia hermética e aparentemente caótica , no extremo do dionisíaco onde abraço seu oposto suposto , sob o clarão do luar e o cintilar d´estrelinhas sem cabo , em láctea sudeste noroeste ou leste oeste que seja , pé na tábua em negra rodovia , a paca apanha o buriti , os catitu pr´arriba da nascente comem a sóva , aquela anta que dormitava ao alvorecer devóra a bacatarana na brenha do rochedo...
Karai Mirim
Dedicado im memoriam a um recente e jovem amigo (fi) Naldo |
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" Por tras de los silencios quedará
Y no mas , nunca mas , volverá "
El Condor Passa
Pronde foste ninfa querida ? Nunca almejaste sequer uma palha do terivel monte de feno Karai Mirim-mirim-mirim... |
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